
Pela primeira vez, a história de Ana Rosa, mulher negra escravizada e, segundo relatos locais, executada em praça pública, será tema de uma celebração cultural em Nazaré da Mata, na Zona da Mata Norte de Pernambuco. O município sedia, de 3 a 7 de novembro, a primeira edição da Celebração da Consciência Negra Escrava Ana Rosa na Capital dos Maracatus Rurais, com oficinas de dança afro, debates, feira cultural, cortejo de maracatus e apresentações musicais gratuitas. A iniciativa acontece durante o Mês da Consciência Negra e propõe uma reflexão sobre a escravidão, a violência contra as mulheres negras, o silenciamento de suas histórias e a importância da reparação histórica.
A história de Ana Rosa permanece viva na memória dos moradores da cidade. Segundo relatos locais, ela vivia escravizada na zona rural do município, em uma região marcada pelos antigos engenhos de cana-de-açúcar e pelas senzalas, onde homens, mulheres e crianças negras eram submetidos ao trabalho forçado. Acusada de envenenar o homem que a escravizava, teria sido retirada à força da propriedade onde vivia, levada até a cidade e executada em praça pública, em 1885. No bairro do Juá, um monumento feito de barro retrata uma mulher de rosto triste e mãos acorrentadas. A escultura, instalada na Praça Escrava Ana Rosa, mantém viva a lembrança de sua história.
A trajetória de Ana Rosa também chama a atenção para a violência sofrida pelas mulheres negras durante a escravidão. Além do trabalho forçado, muitas enfrentavam agressões, abusos e a separação de suas famílias. A exposição pública de uma execução também mostra como a violência podia ser usada para espalhar o medo e impor obediência. Mais de um século depois, a homenagem abre espaço para discutir o silêncio em torno dessas histórias e a violência de gênero que ainda atinge mulheres brasileiras, sobretudo negras e em situação de vulnerabilidade.
A celebração propõe um gesto de reparação histórica por meio da cultura. A ideia é fazer com que Ana Rosa deixe de ser lembrada apenas pela violência de sua morte e passe a ocupar um lugar de reconhecimento na memória da cidade. Ao reunir estudantes, professores, pesquisadores e mestres da cultura popular, o festival também pretende mostrar que falar sobre o passado é uma maneira de discutir justiça, respeito e os direitos das mulheres no presente.
Idealizador do festival, Mestre Bi defende que a homenagem seja uma oportunidade para a população conhecer a própria história. A iniciativa pretende aproximar crianças, jovens e adultos da memória de Ana Rosa e mostrar como a música, a dança e as manifestações populares podem ajudar a contar histórias que nem sempre aparecem nos livros escolares.
Cinco dias de cultura, memória e participação popular
A programação começa na terça-feira, dia 3 de novembro, com a abertura da primeira edição da celebração. Ao longo da semana, as atividades vão reunir estudantes, professores, pesquisadores, artistas, mestres da cultura popular e moradores em diferentes espaços de Nazaré da Mata.
Na quarta-feira, dia 4, das 7h30 às 9h30, a Universidade de Pernambuco (UPE), Campus Mata Norte, recebe uma roda de diálogo sobre o legado do povo negro na formação histórica e cultural da região. Participam Mestre Meia-Noite, fundador do Centro de Educação e Cultura Daruê Malungo, no Recife, Mestre Biu Porfírio, mestre caboclo do Maracatu de Baque Solto Estrela Brilhante de Nazaré da Mata, e Mestra Joana, do Maracatu Estrela Brilhante de Igarassu. A mediação será do professor e pesquisador Uenes Gomes. O encontro vai discutir a importância de levar os conhecimentos dos mestres da cultura popular para as salas de aula, os livros e as pesquisas acadêmicas.
Entre os dias 4 e 6 de novembro, a celebração também oferece 100 vagas gratuitas em oficinas de dança afro com Mestre Meia-Noite. As aulas acontecem na Escola Dom Vieira, no bairro do Juá, das 8h às 12h, e na Escola Dom Ricardo Vilela, no Sertãozinho, das 14h às 17h. A proposta é aproximar os participantes dos movimentos, ritmos e histórias presentes nas danças de matriz africana. Não é necessário fazer inscrição antecipada.
No sábado, dia 7, a programação ocupa as praças da cidade. Das 9h às 20h, a Praça Herculano Bandeira, conhecida como Praça do Frevo, recebe uma feira cultural com 20 espaços destinados à exposição e comercialização de produtos ligados à cultura popular pernambucana. O público poderá conhecer o trabalho de artistas, artesãos e representantes das tradições locais.
Às 20h, um cortejo cultural sai da Praça Escrava Ana Rosa, no bairro do Juá, em direção à Praça do Frevo. O percurso de aproximadamente três quilômetros reúne o Maracatu de Baque Solto Estrela Brilhante de Nazaré da Mata, o Maracatu Estrela Brilhante de Igarassu e o Afoxé Oyá Alaxé, do Recife. A concentração será um momento de homenagem à memória de Ana Rosa, antes de os grupos seguirem pelas ruas com música, dança e manifestações da cultura afro-brasileira.
A partir das 21h, um palco montado na Praça do Frevo recebe apresentações gratuitas da Companhia de Dança Daruê Malungo, do Música Rural, da Ciranda Bela Rosa, do Mestre Bi, e do Samba de Coco Raízes de Arcoverde. Os artistas representam diferentes regiões de Pernambuco e acumulam experiências culturais em países da Europa e da África. O público poderá acompanhar a dança afro, entrar na roda de ciranda e sentir o ritmo do coco, marcado pelas palmas, pela percussão e pelos pés batendo no chão.
A celebração também pretende deixar uma contribuição para além dos cinco dias de programação. Ao reunir memória histórica, educação e manifestações populares, o festival busca incentivar novas conversas sobre a escravidão, o racismo e a importância da população negra na construção da identidade pernambucana. A homenagem a Ana Rosa coloca no centro da programação uma história que merece ser conhecida, discutida e preservada.
A primeira edição da Celebração da Consciência Negra Escrava Ana Rosa na Capital dos Maracatus Rurais é realizada por O Mestre Produção e JN Produções, com produção da Amata Produção e incentivo do Funcultura, Fundarpe, Secretaria de Cultura e Governo de Pernambuco. A iniciativa conta com apoio da Secretaria Municipal de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer de Nazaré da Mata e parceria da Universidade de Pernambuco (UPE), Campus Mata Norte, e da Gerência Regional de Educação (GRE) Mata Norte.
Serviço
O quê: Celebração da Consciência Negra Escrava Ana Rosa na Capital dos Maracatus Rurais
Quando: De 3 a 7 de novembro de 2026
Onde: Nazaré da Mata, Zona da Mata Norte de Pernambuco
Programação:
Terça-feira (3/11) – Abertura da celebração. Horário e local a confirmar.
Quarta-feira (4/11) – Roda de diálogo na UPE, Campus Mata Norte, das 7h30 às 9h30. Início das oficinas de dança afro.
Quinta-feira (5/11) – Oficinas gratuitas de dança afro.
Sexta-feira (6/11) – Encerramento das oficinas de dança afro.
Sábado (7/11) – Feira cultural na Praça do Frevo, das 9h às 20h. Cortejo cultural, às 20h, saindo da Praça Escrava Ana Rosa, no Juá. Apresentações artísticas a partir das 21h, na Praça do Frevo.
Oficinas: Escola Dom Vieira (Juá), das 8h às 12h, e Escola Dom Ricardo Vilela (Sertãozinho), das 14h às 17h, de 4 a 6 de novembro.



