Professores que inspiram: Severina Tavares


A importância do professor na formação do indivíduo é inquestionável. É ele quem, muitas vezes, se torna referência nas vidas das pessoas que mudam a sociedade positivamente. Mais do que isso: é ele quem inspira. E a professora da Escola de Referência em Ensino Médio (EREM) Don Vieira, de Nazaré da Mata, Severina Tavares, domina bem a arte de ensinar e ressignificar realidades. Para ela, a educação quando bem investida e priorizada, se torna um dos direitos fundamentais mais importantes para a equiparação social.

Severina não teve muitos privilégios. Filha de um casal de trabalhadores rurais do município de Aliança, Zona da Mata do Estado, a sétima de oito irmãos contava com a boa vontade dos patrões dos pais para ir à uma escola municipal de Nazaré da Mata, a cerca de 20km de casa, com uma condução do engenho. Nos finais de semana, Severina ajudava os irmãos e a mãe na feira de Aliança, vendendo roupas e tecidos, sem opção digna de lazer.

A infância pobre lhe deu dois caminhos para seguir: no quarto ano no Ensino Fundamental, já alfabetizada, seu pai lhe perguntou se queria continuar os estudos ou ficar em casa, levando a vida do jeito que dava, pacatamente, sem sonhos, ambição e muito menos projeções para o futuro. A menina decidiu continuar os estudos e, aos 14 anos, se mudou com duas irmãs mais novas para uma casa na qual os pais ganharam como pagamento dos trabalhos braçais em Nazaré da Mata. Apesar de estar mais perto da escola, Severina teve que passar por outros desafios, como amadurecer cedo, criar as irmãs e dar conta dos estudos sozinha.

Ao concluir o Ensino Médio, ela optou por fazer um curso técnico em contabilidade. Sem oportunidades na área, ela estudou para passar no vestibular em administração por gostar muito de cálculos, mas não passou. Diante de tantos “nãos”, uma vida sofrida e uma carga emocional que lhe pesava as costas, a jovem decidiu executar o plano C: fazer vestibular para história. Ser professora nunca foi seu grande sonho por conta da timidez. Fruto de uma educação severa, onde o respeito, a moral e discrição eram os princípios básicos ensinados pelos pais, Severina adquiriu receio em falar em público.

“Mas não teve jeito, era o destino: passei em história no vestibular da UPE (Universidade de Pernambuco). Fiquei muito feliz, apesar de a felicidade mesclar com a timidez. E em paralelo à graduação, fiz magistério para poder me manter sem precisar da ajuda dos meus pais, que ganhavam tão pouco. Consegui emprego de professora do primário e segui até concluir o curso”, conta a docente. Severina foi a primeira pessoa da família a ter um curso superior. Em 1988 foi aprovada num concurso do Estado para lecionar nas escolas da Rede e desde então vem colhendo frutos de uma carreira de sucesso, prevista para se encerrar em 2020, ano em que escolheu para se aposentar.

Quase todo ano Severina recebe a notícia de que ex-alunos passaram em vestibulares para cursar história, todos inspirados em suas aulas. São 30 anos ensinando a disciplina para a população de Nazaré da Mata, mas a professora não sabe verbalizar o segredo do sucesso. “Eu não sei dizer. Acredito que eu não discrimino estudante. O bagunceiro e o estudioso, para mim, têm o mesmo valor. Trato todos como eu fui tratada por meus antigos professores: com respeito, empatia, com profissionalismo. Se o estudante veio para a sala de aula apresentando um comportamento inadequado, eu jamais vou julgá-lo, jamais vou expor sua conduta para os colegas. Eu não sei que tipo de vida ele leva, que tipo de problema ele enfrenta. Eu também tive muitos motivos para não ser a melhor aluna, a vida amarga é um deles, então jamais vou excluir alguém da etapa que salvou a minha vida, que foi a escola”, diz, com olhos embargados.

A história que ela ensina em sala de aula é “a mais acessível possível”. “Eu não gosto que decorem fatos, datas, nomes. Eu faço os alunos entrarem no assunto. Se você entrar na minha sala, não vai ver nenhum olhando para o tempo. Todos interagem, me respeitam e aprendem. E a educação deve ser lavada a sério mesmo. Foi ela quem me salvou e é ela quem vai salvar mais vidas, como eu venho presenciando aqui na escola. Ela precisa estar em primeiro lugar em tudo, pois só assim a nossa sociedade vai avançar”, acrescenta.

O sonho de ser professora pode não ter sido o maior da sua vida, mas hoje Severina não sabe como ela seria sem a sala de aula por todo esse tempo. A timidez foi perdida e ela se consagrou pelos alunos e ex-alunos como uma das melhores docentes da EREM Don Vieira. Wesley de Oliveira Silva foi seu aluno na unidade de ensino em 2012, 2013 e 2014. Antes de assistir a sua aula, ele tinha certeza de que ia seguir alguma carreira de exatas pela paixão que tinha pelos números. Mas a professora Severina fez os sonhos do então adolescente mudarem de rumo.

“Eu odiava história. Sempre tive aulas de ler os livros, copiar e passar para o caderno. Era sempre enfadonho. Severina sempre praticou uma didática diferente. Ela incentivava a gente a pesquisar, a procurar fontes diferentes para o mesmo assunto, promovia seminários, debates, dava oportunidade pra gente ser ouvido. E com isso, eu fui me apaixonando pela disciplina”, conta. Wesley concluiu o Ensino Médio na EREM Don Vieira, cursou história na UPE juntamente com outros colegas da turma do Ensino Médio de Severina, e atualmente é aluno do mestrado em História Social da Cultura Regional pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

Enquanto professor do Colégio de Aplicação de Nazaré da Mata, o mestrando se inspirou mais uma vez na ex-professora. “Eu usava a didática dela em sala de aula e sempre deu certo. Não queria um trabalho simples de ler, decorar e apresentar. Eu queria ver pesquisas feitas por estudantes nos seminários. Eu pretendo ser um professor igual a ela, sem dúvidas. Minha carreira é inspirada na dela”, conclui o jovem.

Fonte Secretaria de Educação de Pernambuco

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