
A cena se repete em cidades grandes e pequenas, e já chegou ao interior pernambucano. Uma mulher de cerca de 40 anos entra em um consultório com uma referência colhida no Instagram, paga um valor abaixo da média da região e sai com o rosto preenchido em menos de uma hora.
Algumas semanas depois, percebe um nódulo abaixo do lábio. Procura uma segunda opinião e descobre que o produto aplicado não era exatamente o que havia sido oferecido.
O caso, que parecia isolado quando começou a aparecer em programas de televisão há alguns anos, virou rotina nos serviços de dermatologia e nos pronto-atendimentos de complicações estéticas.
O Brasil registrou 176.069 procedimentos com ácido hialurônico injetável em 2024, segundo o relatório anual da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS).
O número coloca a substância como o segundo procedimento estético não cirúrgico mais procurado no país, atrás apenas da toxina botulínica, e mantém o Brasil na segunda posição global em volume de intervenções não cirúrgicas, atrás somente dos Estados Unidos. No mundo, foram 6,3 milhões de aplicações no ano passado, com crescimento de 5,2% em relação ao ano anterior.
A demanda crescente trouxe consigo um problema que a Anvisa voltou a denunciar em alerta oficial publicado em março de 2026: a aplicação de preenchedores em regiões anatômicas não indicadas, em quantidades acima do recomendado pelos fabricantes, ou por profissionais sem qualificação técnica para o procedimento.
A agência registrou casos de embolia pulmonar, cegueira por oclusão vascular, necrose tecidual e até insuficiência renal associados ao uso indevido dessas substâncias.
Por que o ácido hialurônico se tornou o padrão do mercado
O ácido hialurônico é uma substância produzida naturalmente pelo organismo humano. Está presente na matriz extracelular de diversos tecidos, retém água e contribui para a hidratação e sustentação da pele.
Com o avanço da idade, a produção diminui, e a pele perde firmeza, volume e contorno. Segundo a dermatologista Dra. Mariana Cabral, que atende em Goiânia, a reposição em forma injetável corrige sulcos, repõe volume em regiões específicas do rosto, redesenha o contorno mandibular, melhora olheiras profundas e dá projeção aos lábios.
A substância tem três características que explicam por que substituiu, ao longo das últimas duas décadas, quase todos os outros materiais usados em preenchimento facial. É biocompatível, ou seja, o organismo não a reconhece como corpo estranho e o risco de rejeição é baixo.
É reabsorvível, com efeito que dura entre seis e dezoito meses na maioria das aplicações, dependendo da densidade do produto e da região tratada. E é reversível por meio de uma enzima chamada hialuronidase, que dissolve o material em casos de complicação ou resultado indesejado.
A hialuronidase é, na prática, o que diferencia o ácido hialurônico de produtos permanentes como o PMMA (polimetilmetacrilato). A Sociedade Brasileira de Dermatologia e a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica não recomendam o PMMA para fins puramente estéticos justamente porque ele não pode ser removido sem danos aos tecidos, e suas complicações tardias podem aparecer anos após a aplicação.
A popularização escondeu um risco que ninguém via
A migração do procedimento dos centros cirúrgicos para clínicas de bairro reduziu o custo médio e ampliou o acesso. Também atraiu para o mercado profissionais sem formação adequada, produtos sem registro na Anvisa e estabelecimentos que operam sem alvará sanitário.
Dados do Instituto Municipal de Vigilância Sanitária do Rio de Janeiro mostram que as interdições de clínicas clandestinas de estética cresceram 600% entre 2021 e 2023. O número, embora se refira ao Rio, reflete um movimento que se observa em todo o país, inclusive em cidades de médio porte do Nordeste, onde a oferta de procedimentos cresceu mais rápido do que a fiscalização.
Em Pernambuco, a região metropolitana do Recife concentra a maior parte das clínicas formalmente registradas, mas o procedimento já é oferecido em municípios da Zona da Mata Norte, do Agreste e do Sertão, nem sempre por médicos.
A Sociedade Brasileira de Dermatologia é direta sobre a questão. Quando o preenchimento com ácido hialurônico é realizado por profissional com formação reconhecida, em ambiente apropriado e com produto registrado pela Anvisa, o procedimento oferece risco baixo e resultado previsível. Fora dessas três condições, qualquer aplicação injetável no rosto envolve um conjunto de variáveis que pode resultar em danos permanentes.
A literatura médica brasileira já documentou os principais tipos de complicação. Edema, hematoma e sensibilidade local são reações comuns, esperadas e transitórias. Nódulos, infecções, alergias e oclusão vascular são complicações sérias, raras quando o procedimento é bem indicado e bem executado, e relativamente frequentes quando não é.
A oclusão vascular ocorre quando o produto é injetado dentro de uma artéria ou comprime um vaso, interrompendo a irrigação sanguínea da região. Nos casos mais graves, pode causar necrose da pele e, se atinge vasos que se comunicam com a órbita ocular, perda de visão.
O que separa uma boa aplicação de uma complicação grave
A diferença entre um preenchimento bem-sucedido e uma sequela estética geralmente está em quatro pontos: a formação do profissional, o conhecimento de anatomia facial, o produto utilizado e o ambiente onde o procedimento é realizado.
A formação importa porque o ácido hialurônico não é um cosmético. É um dispositivo médico classificado pela Anvisa como de risco alto. Sua aplicação envolve agulhas e cânulas que atravessam camadas da pele e se aproximam de vasos, nervos e estruturas musculares.
Profissionais sem treinamento em anatomia facial não têm como prever onde está cada vaso e qual é a profundidade segura de aplicação em cada região do rosto.
O produto importa porque o mercado paralelo oferece preenchedores sem registro, com origem desconhecida, vendidos como sendo ácido hialurônico mas contendo, em muitos casos, substâncias permanentes ou contaminadas.
A Anvisa orienta o paciente a exigir o cartão de rastreabilidade do produto utilizado e a verificar se o estabelecimento tem autorização sanitária. Se o profissional não consegue mostrar o cartão ou se o produto não tem rótulo identificável, a aplicação não deve ser feita.
O ambiente importa porque, em caso de complicação aguda, como uma oclusão vascular, o atendimento imediato com hialuronidase pode ser a diferença entre uma reversão completa e uma sequela permanente.
Consultórios médicos estruturados mantêm o medicamento à disposição. Salões de beleza e estabelecimentos não médicos, em geral, não.
Como verificar a qualificação de quem vai aplicar
A consulta ao Conselho Regional de Medicina é o primeiro passo. Todo médico tem um número de CRM, que pode ser conferido no site do conselho do estado onde ele atua.
O médico especialista em dermatologia tem também um Registro de Qualificação de Especialista (RQE) vinculado ao CRM, que comprova a conclusão da residência médica em dermatologia ou a obtenção do título pela Sociedade Brasileira de Dermatologia.
Cirurgiões plásticos com título reconhecido pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica também são habilitados a realizar o procedimento. Outros profissionais da área da saúde, como cirurgiões-dentistas, podem aplicar preenchedores em condições específicas previstas pela regulamentação do conselho de classe correspondente, com restrições quanto à região anatômica de aplicação. Esteticistas, biomédicos sem habilitação específica e técnicos não estão autorizados a realizar a aplicação de preenchedores injetáveis.
A busca por clínicas de dermatologia com profissionais titulados na cidade de referência ou em capitais próximas é, hoje, parte do processo de decisão.
Antes de marcar uma avaliação, o paciente pode buscar o nome do médico no site do conselho regional, conferir o número do RQE e verificar se ele consta na lista oficial de membros da Sociedade Brasileira de Dermatologia.
A primeira consulta também serve como filtro. Um profissional habilitado costuma dedicar tempo à avaliação da estrutura óssea, da espessura da pele, das proporções do rosto, do histórico médico e das expectativas do paciente antes de indicar qualquer aplicação. Quando a primeira conversa pula essa etapa e parte direto para a oferta do procedimento, é um sinal de alerta.
A pressão do resultado imediato e a conta que vem depois
A facilidade de marcar um procedimento por mensagem direta nas redes sociais, somada à oferta de pacotes promocionais e ao apelo dos resultados antes-e-depois publicados por influenciadores, criou uma cultura de decisão rápida em torno de uma intervenção que, do ponto de vista clínico, exige planejamento.
Procedimentos mal indicados ou mal executados geram um custo financeiro e emocional alto. A correção de um preenchimento desigual, de um nódulo persistente ou de uma assimetria provocada por aplicação inadequada costuma ser mais cara do que a aplicação original, exige tempo de recuperação e nem sempre devolve a aparência prévia.
Em casos de oclusão vascular, o tratamento envolve administração de hialuronidase em alta dose, monitoramento hospitalar e, eventualmente, cirurgia reparadora.
O ácido hialurônico continua sendo a opção mais segura entre os preenchedores faciais disponíveis no Brasil. A diferença entre o resultado natural que o paciente espera e a sequela que ele teme não está no produto. Está em quem o aplica, onde aplica e com base em qual planejamento.
A escolha do profissional, portanto, deixou de ser um detalhe. É a parte mais importante do procedimento.






