Mestre Biloco morre aos 83 anos em Goiana e deixa legado histórico para a cultura popular de Pernambuco

Por Rafael Santos 11/04/2026 13:32 • Atualizado Há 2 horas
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A cultura popular pernambucana amanheceu de luto neste sábado (11). Morreu, aos 83 anos, em sua residência, no município de Goiana, o mestre da cultura popular Severino Luiz de França, conhecido como Mestre Biloco. A morte do artista deixa uma lacuna profunda na cultura da Zona da Mata Norte e de todo o estado.

Reconhecido como um dos mais importantes nomes da cultura popular de Pernambuco, Mestre Biloco dedicou mais de cinco décadas à preservação de tradições como ciranda, maracatu, frevo e folguedos populares. Até o momento, a família não divulgou detalhes sobre velório e sepultamento.

Uma vida dedicada à cultura popular

Nascido no Sertão pernambucano, Biloco chegou ainda bebê a Goiana, onde construiu toda sua trajetória artística. Autodidata, começou cedo na música, construindo instrumentos com latas e canos ainda na infância. Com o tempo, dominou diversos instrumentos e passou a atuar como maestro, regente e mestre de manifestações culturais.

Em 1971, fundou a Ciranda dos Cangaceiros, considerada uma das mais antigas cirandas ainda em atividade em Pernambuco. Inspirado na figura de Lampião, o grupo ganhou identidade própria, com figurino característico, apito e estilo musical único, preservado por décadas.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional reconheceu Mestre Biloco como o único cirandeiro que ainda utilizava o apito para iniciar as rodas de ciranda, mantendo uma tradição rara e histórica.

A ciranda, inclusive, foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil em 2021, e Biloco era considerado um dos principais guardiões dessa tradição.

Mestre completo da cultura pernambucana

Além da ciranda, Mestre Biloco também atuou como:

  • Mestre de maracatu de baque solto
  • Regente de orquestras de frevo
  • Fundador de banda marcial
  • Guardião do folguedo Aruenda
  • Educador e formador de músicos

Ao longo da vida, formou gerações de músicos e participou ativamente de eventos culturais, religiosos e tradicionais da Mata Norte, como procissões, festas populares e ciclos festivos.

Um dos seus maiores feitos foi o resgate da Aruenda, manifestação cultural rara que tem origem entre os séculos XVI e XVIII e que foi preservada graças ao trabalho do mestre.

Sonho realizado aos 80 anos

Em 2023, ao completar 80 anos, Mestre Biloco realizou um sonho antigo: gravar seu primeiro CD. O projeto reuniu 13 cirandas autorais, registrando sua história e legado musical.

O lançamento oficial aconteceu em 2024, no centro de Goiana, reunindo artistas e admiradores em uma celebração histórica da cultura popular.

Prefeitura decreta luto oficial

A Prefeitura Municipal de Goiana lamentou o falecimento e decretou luto oficial de três dias no município.

Em nota, o prefeito Marcílio Régio destacou a importância do artista para a cidade:

“Goiana se despede de um dos seus maiores símbolos da cultura popular. Mestre Biloco deixa um legado imenso de arte, tradição e identidade para nosso povo.”

Mestre Biloco era viúvo e deixa sete filhos, além de centenas de alunos, músicos e admiradores que seguirão mantendo viva sua obra.

Legado eterno

A morte de Mestre Biloco representa a perda de uma memória viva da cultura popular pernambucana. No entanto, seu legado permanece nas rodas de ciranda, nas bandas marciais, nos cortejos culturais e nas gerações que ajudou a formar.

Os tambores continuam tocando. A ciranda segue girando. E o apito de Mestre Biloco seguirá ecoando na história cultural de Pernambuco.

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