Cida Lopes celebra 18 anos do Mamulengando Alegria e recebe Título de Notório Saber da UPE

Por Rafael Santos 13/04/2026 10:19 • Atualizado Há 2 horas
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Glória do Goitá, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, reúne duas frentes de reconhecimento da cultura popular neste mês de abril: os 18 anos do Grupo Mamulengando Alegria e a concessão do Título de Notório Saber em Cultura Popular da Universidade de Pernambuco (UPE) à mamulengueira e bonequeira Cida Lopes.

A honraria será entregue no próximo dia 16 de abril, às 16h, no Campus Mata Norte, em Nazaré da Mata, consolidando o alcance institucional de uma trajetória construída no território e vinculada à continuidade do mamulengo no Estado.

A celebração destaca a trajetória de Cirleide do Nascimento Silva, 36 anos, conhecida como Cida Lopes, herdeira de Mestre Zé Lopes. Ao assumir o sobrenome artístico do pai, ela consolida há 27 anos sua atuação como referência cultural no município, onde iniciou ainda na infância no teatro de bonecos. O título concedido pela UPE reconhece mestres com mais de uma década de prática, legitima saberes tradicionais no ambiente acadêmico e reforça o papel de Cida na preservação e transmissão do mamulengo em Pernambuco.

O pai de Cida foi um dos principais nomes do mamulengo do Brasil. Zé Lopes começou na juventude, com dedicação extrema à criação, manipulação de bonecos e formação de novos brincantes. Reconhecido como um dos mais representativos dessa tradição, recebeu prêmios nacionais voltados ao teatro de bonecos popular. Em 2017, Mestre Zé Lopes tornou-se Patrono dos Mamulengos de Pernambuco e Patrimônio Vivo (in memoriam), títulos dados pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) como Patrimônio Vivo de Pernambuco. Zé Lopes também fundou o Museu do Mamulengo de Glória de Goitá. Ele faleceu em agosto de 2020.

A rotina de Cida no mamulengo ocorreu progressivamente. A princípio, atuando nos bastidores e organizando os bonecos. Depois, passou à execução musical e, já adulta, assumiu a condução das apresentações. Esse percurso consolidou o domínio das etapas da brincadeira e terminou com sua independência no teatro.

Com apoio e incentivo de sua mãe, a mamulengueira e bonequeira Neide Lopes, 51 anos, Cida Lopes fundou o grupo Mamulengando Alegria e a Casa dos Saberes da Cultura Popular (Casacupo). O grupo é formado somente por mulheres da própria família. A criação do Mamulengando há 18 anos marcou uma narrativa inédita no teatro de bonecos ao incorporar personagens femininas com novas abordagens, eliminando discursos que reproduziam padrões antigos. A tradição familiar foi fundamental nesse processo, com a contribuição da mãe e dos irmãos na confecção dos bonecos e na transmissão de técnicas.

RECONHECIMENTO NACIONAL

Pela sua atuação feminina nesse cenário de cultura popular, Cida Lopes tem ultrapassado os limites de Glória do Goitá. O grupo circula por festivais, feiras e encontros no país, além de desenvolver oficinas de formação de novos talentos para manipulação de bonecos. O trabalho também passou a integrar pesquisas acadêmicas nas universidades e instituições públicas do Brasil.

Cida Lopes mantém presença anual na Fenearte, integrando a Alameda dos Mestres como reconhecimento à sua atuação no mamulengo pernambucano. O Grupo Mamulengando Alegria é certificado como Ponto de Cultura e possui estrutura institucional própria. No centro dessa articulação está a CASACUPO, consolidada como espaço de formação, circulação cultural e mobilização comunitária, funcionando como polo que reúne e impulsiona diferentes expressões artísticas e expressões como maracatu, teatro e o próprio mamulengo.

O QUE É MAMULENGO:

O Teatro de Mamulengo é uma forma de teatro popular feita com bonecos, muito presente no Nordeste do Brasil, especialmente em Pernambuco. As apresentações acontecem em um pequeno palco, geralmente montado em feiras, ruas ou festas, onde o público assiste às histórias enquanto o manipulador fica escondido por trás da estrutura, dando voz e movimento aos personagens.

As histórias do mamulengo misturam situações do cotidiano, elementos da cultura popular e temas conhecidos do público. Os bonecos falam, cantam, improvisam e interagem diretamente com as pessoas, criando um ambiente de troca e participação. O riso é parte central da apresentação, mas também há espaço para crítica social e reflexão.

O mamulengo nasceu no interior e mantém uma relação direta com a vida das comunidades. Ele registra modos de falar, costumes e experiências do povo, funcionando como uma forma de contar histórias que passam de geração em geração. Cada apresentação carrega traços do lugar e das pessoas que a produzem.

Reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil, o Teatro de Mamulengo tem papel importante na preservação da cultura popular. Ele mantém viva uma tradição que resiste ao tempo, valoriza saberes antigos e forma novos brincantes, garantindo que essa expressão continue circulando e sendo reinventada.

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