Mestre Anderson Miguel equilibra modernidade e tradição em Sonorosa

Sem abandonar as raízes de Nazaré da Mata, músico faz álbum que integra o baixo e guitarra à ciranda e maracatu


Mestre Anderson Miguel, a despeito do título, tem apenas 22 anos, mas já tem significativa experiência para carregar a alcunha e ser a pessoa à frente do centenário grupo de maracatu de baque solto Cambinda Brasileira, de Nazaré da Mata. “Comecei aos oito anos”, recorda o músico, que já atua profissionalmente há seis anos e lançou há pouco o quarto álbum da carreira, Sonorosa, pelo selo EAEO Records, já disponível nas plataformas digitais.

Considerando que os registros anteriores foram feitos de maneira artesanal, Sonorosa é, de fato, o primeiro trabalho de Anderson Miguel a sair com uma roupagem mais lapidada. A produção é dividida entre Siba e João Noronha, sendo o primeiro também coautor de três das nove faixas presentes no álbum. “Nos outros discos, particularmente, eu fazia tudo sozinho, na força de vontade”, pontua Anderson, que classifica Sonorosa como uma criação coletiva. O disco tem faixas com participações especiais: O cirandeiro, com vocais de Juçara Marçal (Metá Metá), e No hoje e na hora, com Jorge du Peixe (Nação Zumbi) nos vocais e Beto Villares no sintetizador modular.

Essa coletividade abre espaço não só para colaborações dentro da tradição do maracatu e da ciranda, mas também acrescenta outros ingredientes à música de Anderson, da guitarra e baixo a sintetizadores, todos harmoniosamente integrados. A mescla e busca por outras sonoridades, aliás, não é algo estranho a Anderson, que em suas apresentações gosta de flertar com o forró e sertanejo. Entre as referências, ele cita três mestres de maracatu: seu pai, Aderito, Barachinha e Zé Galdino. Para além de Nazaré da Mata, ele destaca os repentistas da dupla Os Nonatos, os forrozeiros Santanna e Irah Caldeira, além da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano.

Sonorosa segue caminho similar a De baile solto (2015), de Siba, na tarefa de integrar a música e lírica da Mata Norte a sonoridades distintas, embora o álbum de Anderson Miguel mantenha as raízes mais profundas no solo da tradição local. A sonoridade alcançada no álbum, diz o músico, agradou os conterrâneos, mas ele acredita que as performances ao vivo podem causar estranhamento, já que nos palcos tem deixado de lado a percussão da ciranda. “Não tem surdo, tarol. É uma coisa diferente”, explica.

“É um trabalho feito para andar pelo mundo”, diz o músico sobre o álbum, que não se distancia das raízes da Mata Norte, mas dialoga também com a modernidade. Tendo acabado de voltar de uma pequena série de apresentações em São Paulo, no fim de maio, o mestre comemora a boa recepção do público paulistano mas lamenta a dificuldade para conseguir espaço no próprio estado.

“Politicamente, não dão valor à nossa cultura”, diz. “A gente tira pelo maracatu de baque solto, que por causa da Lei do Silêncio quase perdia o direito de tocar”. De todo jeito, o mestre não pensa em sair do estado ou mesmo de Nazaré. “Tenho uma vida toda em Pernambuco, tenho meu grupo de ciranda, de maracatu, teria que abrir mão apenas se fosse por uma coisa muito concreta”, diz. “Ainda sou um bebezinho, quero plantar muita coisa antes de pensar nisso”.

Por: Breno Pessoa

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